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Conheça o projeto 'Desengaveta meu texto', finalista do Jabuti que atua em escolas de Campina Grande

Por Denny Costa em 25/11/2021 às 08:18:28

Final do prêmio acontece nesta quinta-feira (25). Iniciativa surgiu em 2017, estimulando estudantes das periferias para além das obrigações escolares. Alunos impctados pelo projeto não ficaram sem iniciativas durante a pandemia

Arquivo pessoal/Desengaveta meu texto

A final do Prêmio Jabuti, premiação literária mais tradicional do país, acontece nesta quinta-feira (25). Concorrendo na categoria "Fomento à Leitura", a paraibana Patrícia Rosas representa o projeto 'Desengaveta Meu Texto'. Essa é a terceira vez que a professora, natural de Campina Grande, concorre em uma final do Jabuti.

Com o objetivo de desengavetar, em linguagem figurada e literal, as histórias guardadas por estudantes da rede estadual de ensino, Patrícia decidiu, em 2017, transformar frustrações pessoais em possibilidades de futuro para a educação.

Na época, a educadora carregava mais de 15 anos de sala de aula na bagagem, nutria a inquietação de ver estudantes lendo e escrevendo por pura obrigação escolar, se apegando a metodologias ortodoxas que não davam espaço para criatividade e gosto pelas atividades. Foi a partir desse incômodo que surgiu a iniciativa que mudaria a vida de muitos alunos e, sobretudo, a de Patrícia.

O 'Desengaveta meu texto" deu os primeiros passos em uma escola da zona rural do município de Queimadas, Agreste da Paraíba, a mais de 400 quilômetros de distância da capital. Em pouco tempo, já em 2019, o projeto se vincula a rede estadual de ensino e migra para Campina Grande, mantendo a essência de atingir estudantes periféricos de várias escolas.

A expansão extra-muros foi possível através de um financiamento particular, onde os recursos doados por uma fundação permitiram que houvesse fôlego e estrutura para a equipe seguir levando conhecimentos de forma gratuita, com foco nas comunidades de baixa renda.

Em 2019 o projeto se vinculou a rede estadual de ensino e o sonho de Patrícia Rosas migrou para Campina Grande.

Arquivo pessoal/Desengaveta meu texto

“Nosso principal objetivo é fomentar a leitura e a escrita a partir da formação de leitores e escritores com trabalhos de natureza educacional, cultural, social e de pesquisa. Desde o início escolhemos atuar nas periferias, porque é lá que as políticas públicas mais demoram a chegar. Queremos atender as crianças e jovens que não tem oportunidades”, relata Patrícia.

Desengavetando sonhos

O norte da trajetória de Patrícia é sair do lugar por onde se caminhou na educação até hoje. Para a equipe que constrói a iniciativa, desengavetar é um verbo de ação. É sobre impulsionar estudantes que sempre foram capazes, mas por questões estruturais não destinavam às atenções e os esforços a construção de algo que os tirassem da zona de conforto. A equipe é composta por voluntários, professores da rede estadual e estudantes de graduação. Todos são bem-vindos, desde que o propósito seja um só.

“Não é possível achar que a sala de aula se resuma à troca de favores: o aluno faz a atividade e em compensação o professor lhe dá uma nota ou alguns pontos. Ensinar e aprender vão muito além dessa experiência reduzida”, desabafa a criadora do "Desengaveta".

Um dos pupilos do 'Desengaveta meu texto" é a Revista Tertúlia, espaço criado ainda em 2017 para reunir escritos dos estudantes e incentivar que as histórias antes guardadas em gavetas ou no imaginários dos alunos pudessem chegar a várias mãos. A revista chegou a ser finalista do Prêmio Jabuti em 2018, primeiro reconhecimento do projeto paraibano na premiação nacional.

Uma das amantes da escrita que teve a oportunidade de dividir as histórias que carregavam em silêncio foi a estudante Samara Silva. Com 16 anos hoje, é com tom de alegria que a jovem conta sobre a importância que o projeto teve para ela. Cidadã campinense, Samara teve seu primeiro texto publicado na revista Tertúlia em 2019.

A estudante vê a leitura como uma ferramenta de emancipação.

Arquivo pessoal/Samara

A edição, na época, falava sobre memórias, e a estudante acredita que essa experiência se tornou exatamente isso para ela: “esse ano, relendo a resenha, eu a vejo como uma memória de como eu estava e o que eu pensava na época e como eu me conectava com o livro sobre o qual eu escrevi, a experiência foi muito marcante”, relata Samara.

Dividir a escrita com alguém além de si e da professora mudou o olhar da aluna, ela hoje enxerga o mundo como quem sabe que tem histórias valiosas para mostrar, sonhos para compartilhar, além de uma autonomia possível graças ao estímulo do Desengaveta.

“Eu já escrevia anteriormente, por isso o projeto realmente desengavetou meus escritos. Escrevo poemas e histórias variadas. O projeto também estimula muito a leitura, isso representa pra mim uma liberdade de pensamento. Se antes isso já fazia parte do meu dia a dia, depois do Desengaveta passou a ser meu foco, meu sonho é ser professora de literatura”, desabafa e planeja Samara.

Com o passar do tempo o projeto ganhou diversas frentes, contando com o "Delivery Literário" onde, através do recebimento de doações, o Desengaveta leva livros aos estudantes que fazem parte da conexão do projeto. Também foram criadas plataformas digitais para dividir conteúdos a distância e proporcionar a troca de conhecimentos, como o caso do podcasts e uso das redes sociais. Para a coordenadora Patrícia Rosas, são alternativas estratégicas tendo em vista que os jovens são o público-alvo.

Kit enviado pelo 'Delivery literário'

Arquivo pessoal/Desengaveta meu texto

“Nossos canais de interação são muito utilizados e foram primordiais para tocar o projeto na pandemia. Temos clubes de leitura online, temos um grande público que divulga nosso trabalho. As redes também democratizam o acesso, já que a gente disponibiliza livros, músicas e revistas”, explica a educadora e criadora do Desengaveta.

São quatro anos sonhando com uma educação efetiva, capaz de transformar a vida de quem cresceu nas periferias. A estimativa é que, ao longo desse tempo, mais de 1700 alunos tenham sido impactados diretamente e, através de bibliotecas revitalizadas e atividades nas escolas, mais de 4.000 estudantes tenham tido o aprendizado atravessado pelo projeto.

Um clube de leitura solidária, chamado de "Movleitor", apadrinha crianças e jovens entre 6 e 17 anos de idade. Essa é a principal iniciativa do "Desengaveta meu texto" atualmente. Os interessados em apadrinhar crianças e adolescentes podem se inscrever através do site e escolher um dos pacotes disponíveis. Assim os alunos recebem kits literários que não poderiam ser capazes de pagar.

Uma rede que conecta quem nutre e quem é nutrido pelos sonhos em linhas, que além dos materiais, auxilia os estudantes que participam dos clubes de leitura através de tutorias. As atividades são feitas remota e presencialmente. Os formatos diversos tem permitido que jovens de outras cidades da Paraíba possam ser afetados pelo projeto. E os planos de Patrícia contam com a esperança de ampliar cada vez mais o alcance e garantir que seu propósito mude as vidas das novas gerações.

A cerimônia de entrega do Jabuti acontece nesta quinta (25), Patrícia está ansiosa e grata por ter um projeto tão jovem ganhando tanto reconhecimento. Os primeiros colocados receberão o troféu Jabuti e R$ 5 mil. Neste dia também será revelado o vencedor do Livro do Ano, que ganha R$ 100 mil e o Jabuti dourado.

*Sob supervisão de Krys Carneiro

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Fonte: Globo

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