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Após dar à luz, mulher morre por Covid-19 e irmã adota a criança: "não vou deixar dúvida que não foi por causa dele"

Por Denny Costa em 28/05/2022 às 15:26:15

Este sábado (28) é o Dia Internacional da Luta Contra a Mortalidade Materna. Paraíba registra a segunda menor taxa de mortalidade do Nordeste em 2022. Jéssica foi internada na maternidade Frei Damião um dia após esta foto, no dia 19 de outubro de 2020. Ela deu à luz a Bryan, mas os médicos informaram que eles não chegaram a se conhecer.

Arquivo pessoal

“Ela sempre fez o pré natal bem direitinho”, relembra Jucinara Fernandes, irmã de Jéssica Fernandes, que está entre as 54 mortes maternas registradas na Paraíba em 2020. Ela era nutricionista e estava grávida de 8 meses quando foi diagnosticada com Covid-19. Jéssica deu entrada na maternidade Frei Damião no dia 19 de outubro, deu à luz a Bryan já no dia seguinte e, após 19 dias internada, faleceu devido às complicações da doença.

Sua irmã, Jucinara Fernandes, adotou o bebê Bryan, que hoje está com 1 ano e sete meses: “Já me perguntaram um milhão de vezes, "você não tem medo dele achar que foi por causa dele que ela morreu?", mas não vou deixar nenhuma dúvida, não foi por causa dele”, diz Jucinara.

Jéssica Fernandes e seu esposo, pai de Bryan.

Arquivo pessoal

Grávidas e puérperas foram incluídas pelo Ministério da Saúde como grupo de risco da Covid-19. A pandemia fez com que a Paraíba saltasse de 36 mortes maternas em 2019, para 54 em 2020 e 72 em 2021. Jéssica Fernandes não possuía comorbidades e sempre realizou todos os exames relacionados a sua gravidez que foram solicitados pela médica.

“Antes da Covid ela era normal de saúde, não tinha hipertensão, não sentia nada. Um dia ela sentiu dor e febre, foi pro médico e descobriu esse problema. Primeiro ela fez dois testes e deu negativo, mas no terceiro deu positivo. Ela mal saia de casa, quando saia era de máscara. Ela era fisioterapeuta, sabia todos os riscos que corria”, diz Jucinara Fernandes, irmã de Jéssica.

“Como ela sabia, ela evitava. Não tinha contato com muita gente. O esposo dela era farmacêutico, só que ele tinha todo o cuidado quando chegava em casa. Se você me perguntar onde ela pegou ou como foi, não sabemos dizer. Ninguém testou positivo, só ela.”

Jucinara perguntou aos médicos se Jéssica chegou a conhecer seu filho Bryan, mas foi informada que eles foram separados sem se verem. “Ela não viu ele, ele não viu ela. Ela passou 19 dias em coma induzido entubada e não teve retorno, infelizmente”, diz Jucinara. Depois disso, a vida de Juciana e sua família mudou completamente: “foi do zero a 100”.

Me vi em uma situação de não saber o que fazer, não tinha estrutura.

"O mundo da minha mãe e do meu pai acabaram. Eu já tinha um filho pequeno, mas ela era como uma filha pra mim. Com ela, éramos quatro irmãs, todas muito unidas. Ela era a caçula, morou comigo, então eu disse: não vou deixar o bebê dela com ninguém mais. Falei com o esposo dela, pedindo pra trazer Bryan pra cá. Como já tem um berço, ele fica. Ele perguntou: e seu trabalho? Eu respondi que não trabalho mais, meu trabalho agora é cuidar de Bryan”, diz Jucinara Fernandes, que se emociona ao falar da irmã: “não sei se um dia vou superar” .

Jéssica ao lado de suas três irmãs.

Arquivo pessoal

“Bryan é minha vida. Ele é um pedaço de mim, não saiu de mim, mas ele é tudo pra mim. É um filho que eu adotei. Nunca pensei em amar tanto uma pessoa que não saiu de mim tanto quanto amo ele.”

Jucinara faz questão de falar de Jéssica para Bryan. “Eu faço questão de dizer que a mãe dele é Jéssica. Mamãe Gel, como eu digo. Mostro foto, a gente vai ver a estrelinha e a que mais brilha é a mãe dele, olhando pra ele. Sempre faço questão de mostrar vídeo para ele ouvir a voz dela, ele reconhece. É um dia de cada vez”, diz Jucinara.

Hoje Bryan tem um ano e sete meses.

Arquivo pessoal

Paraíba tem segunda menor taxa de mortalidade materna do Nordeste

O índice de mortalidade materna na Paraíba nos últimos dois anos é alarmante. No entanto, no primeiro semestre de 2022, o estado registrou a segunda menor taxa da região do Nordeste. Os dados são do Ministério da Saúde.

Mortalidade Materna da região Nordeste

Até este mês, foram registradas 8 mortes maternas no estado. Esse número representa uma queda se comparado ao primeiro semestre do ano passado, onde foram registradas 35 mortes. A coordenadora do Estado da Saúde da Mulher, Fátima Moraes, explica que se observou um aumento de mortes maternas significativo com a pandemia. “Quando a gente pega o número de óbitos maternos que ocorreram no mesmo período deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, ano passado, a gente vê uma redução significativa de mais de 70% no número de óbitos ocorridos no mesmo período”, diz a coordenadora.

Ana Cristina Nóbrega é fisioterapeuta e trabalha no acompanhamento de gestantes. Ela é doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ela explica que os estudos são unânimes quanto ao perfil das vítimas. “As pesquisas repetem dados, a situação repete a tragédia. São mulheres negras ou pardas, com baixa escolaridade e solteiras que fazem parte do perfil de mortalidade materna no estado da Paraíba”, diz a pesquisadora.

Hipertensão é a principal causa da mortalidade materna

As doenças hipertensivas continuam vitimando e liderando as mortes maternas. “Normalmente as mortes decorrentes de complicações obstétricas ocorridas durante a gravidez, parto ou puerpério são evitáveis e, muitas vezes, são desencadeadas por assistência inadequada à mulher ou agravamento de alguma complicação já presente nessa grávida durante o ciclo gravídico puerperal. No Brasil, como também, em vários estados, como a Paraíba, observa-se nas pesquisas que os distúrbios hipertensivos da gestação, sangramentos e infecções são as causas mais comuns das mortes durante o período gravídico puerperal”, diz a pesquisadora Ana Cristina Nóbrega.

A fisioterapeuta nota que, de fato, há redução no número de casos no primeiro semestre de 2022 em comparação ao mesmo período de 2021 na Paraíba. Mas chama atenção para o fato de que, na sua prática como pesquisadora dessa área, ela sempre teve dificuldades em coletar dados. “Às vezes faltava uma informação na Declaração de Óbito (DO) de um dado que é imprescindível para planejar medidas e adotar estratégias”, diz a pesquisadora.

“Para que o número de mortes chegue a “zero” é importante a notificação melhor dos dados e adotar estratégias que possam contribuir para melhora da qualidade de vida dessas mulheres durante a gestação, parto e puerpério. Nós, pesquisadores e profissionais da saúde, somos responsáveis pela saúde das mesmas. É preciso fazer uso dos dados para transformá-las em ações concretas”, diz Ana Cristina Nóbrega.

Diante do cenário de mortalidade materna, a pesquisadora destaca a importância da assistência "Pré-Natal", que é destinada às mulheres grávidas. “Esses cuidados requisitam empenho de todos os profissionais da saúde, como médicos, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, dentre outros, com fins de repassar informações educativas e preventivas assegurando o desenvolvimento de uma gravidez da forma mais saudável possível, evitando assim, um desfecho trágico para famílias e profissionais envolvidos".

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Fonte: Globo

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